O tempo passa e a gravidez não acontece? É normal que o processo de engravidar demore algum tempo, mas alguns sintomas como fluxo menstrual reduzido ou irregularidades menstruais acentuadas podem requerer avaliação médica. Sabe mais.
Sinais que podem sugerir desafios de fertilidade feminina
Ao longo da vida, o teu corpo passa por diversas mudanças, muitas delas refletidas no teu próprio ciclo menstrual, nos níveis hormonais ou na forma como te sentes em diferentes fases. Pequenas variações são normais e, na maioria das vezes, não têm significado patológico.
Ainda assim, quando determinados sinais persistem ou se repetem ao longo do tempo, podem justificar uma avaliação médica. Neste artigo, ajudamos-te a reconhecer alguns sinais que, em determinados contextos, podem estar associados a desafios na fertilidade feminina, com informação clara e sem alarmismos.
Alterações do ciclo menstrual
O ciclo menstrual é, para muitas mulheres, um verdadeiro “barómetro” da saúde reprodutiva. Ainda assim, nem todos os ciclos são iguais, nem seguem um padrão absolutamente regular.
É comum observar:
- pequenas variações de duração de mês para mês (especialmente em períodos de maior stress, após viagens longas, mudanças de rotina ou peso);
- irregularidades em fases específicas da vida (adolescência, pós-parto, transição para a menopausa).
A irregularidade também pode fazer parte de um processo fisiológico normal. No entanto, há situações em que as alterações do ciclo podem justificar uma avaliação mais aprofundada, nomeadamente quando:
- os ciclos são muito espaçados (geralmente superiores a 35 dias);
- a menstruação desaparece durante vários meses, situação conhecida como amenorreia;
- existe irregularidade persistente ao longo do tempo (nunca sabes quando vais menstruar).
Como a ovulação é um passo essencial para que ocorra uma gravidez espontânea, compreender o que está por trás destas alterações é essencial.
Nota: A interpretação do ciclo menstrual nunca é feita de forma isolada. A história clínica, os sintomas associados e a evolução ao longo do tempo são determinantes para distinguir variações normais de situações que merecem uma avaliação mais aprofundada.
Ausência de menstruação
A ausência de menstruação, conhecida clinicamente como amenorreia, é um sinal que tende a gerar preocupação - o que é perfeitamente natural. Ainda assim, importa lembrar que nem sempre significa um problema grave e que, em muitas situações, pode ser transitória.
Pode estar associada a causas passageiras, como:
- alterações significativas de peso;
- exercício físico intenso;
- stress prolongado;
- adaptações hormonais em determinadas fases da vida.
No entanto, quando a ausência de menstruação:
- se prolonga por mais de 3 meses (sem estares grávida, em pós-parto ou na menopausa);
- não tem uma causa evidente;
- ou surge de forma inesperada, com ciclos previamente regulares.
Pode indicar alterações hormonais que interferem com a ovulação e justificar avaliação médica. Nestas situações, mais do que o “atraso” em si, o que importa é compreender o que está a condicionar o equilíbrio hormonal. Mais uma vez, o contexto é essencial.
Dor menstrual intensa e alterações do fluxo
É normal sentir algum desconforto durante a menstruação. As cólicas menstruais ligeiras a moderadas são um sintoma comum reportado por muitas mulheres e, na maioria dos casos, não interfere com a fertilidade.
Ainda assim, há situações em que a dor merece mais atenção, sobretudo quando:
- é intensa ou vai piorando com o tempo;
- interfere com a tua vida quotidiana (por exemplo, obriga a faltar ao trabalho);
- não melhora com a medicação habitual, como analgésicos ou anti-inflamatórios.
Em alguns casos, a dor menstrual intensa - sobretudo quando surge acompanhada a alterações significativas do fluxo menstrual - pode estar relacionada com condições ginecológicas que podem ter impacto na fertilidade, como:
Endometriose
- Condição em que tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora deste órgão.
Miomas uterinos
- Nódulos benignos que se desenvolvem no útero.
Estas condições podem, em algumas situações, dificultar a implantação do embrião ou provocar inflamação persistente, com possível impacto na fertilidade. No entanto, a sua presença não significa, por si só, dificuldade em engravidar.
Importa sublinhar que muitas mulheres com dor menstrual intensa ou alterações do fluxo engravidam espontaneamente. Ainda assim, quando estes sintomas são persistentes ou interferem com a qualidade de vida, deves procurar ajuda médica.
E se o fluxo nas menstruações tiver pouco volume?
Ter pouco fluxo menstrual, por si só, não é um sinal de desafio na fertilidade. Existem mulheres que sempre tiveram menstruações mais leves, ovulam regularmente e engravidam sem dificuldade. A quantidade de fluxo menstrual varia naturalmente de pessoa para pessoa.
No entanto, pode fazer sentido procurar uma avaliação médica quando o fluxo menstrual se torna subitamente muito reduzido, quando surge associado a ciclos irregulares, ausência de menstruação ou a outros sinais hormonais. Nesses casos, a avaliação ajuda a perceber se existe alguma alteração que possa estar a interferir com a ovulação ou com o funcionamento do útero.
Dor pélvica fora do período menstrual
Algumas mulheres referem dor pélvica noutros momentos:
- durante a ovulação (a meio do ciclo);
- durante as relações sexuais;
- de forma contínua ou pouco definida.
Tal como acontece com a dor menstrual, nem toda a dor pélvica indica um problema grave. No entanto, quando é recorrente, localizada ou progressivamente mais intensa, pode justificar observação clínica para despistar inflamações ou outras condições pélvicas.
Identificar a causa pode ajudar a aliviar sintomas e a compreender se existe algum impacto reprodutivo.
Alterações hormonais visíveis
O equilíbrio hormonal tem um papel central na regulação do ciclo menstrual e da ovulação, e pode refletir-se em sinais visíveis no corpo, tais como:
- acne de aparecimento tardio ou persistente;
- queda de cabelo mais acentuada;
- aumento de pelos em locais menos habituais, como o rosto (queixo, buço, mandíbula), abdómen inferior, peito ou região lombar;
- alterações persistentes no peso (ganho ou perda súbita sem explicação);
- mudanças no corrimento vaginal (por exemplo, alterações na consistência ou cheiro, que podem indicar infeções ou desequilíbrios na flora).
Na maioria das situações, estes sinais surgem de forma isolada e não têm impacto significativo na fertilidade. No entanto, quando estas alterações persistem ao longo do tempo ou surgem associadas a ciclos menstruais irregulares, podem indicar um desequilíbrio hormonal que interfere com a ovulação.
Nestes casos, olhar para o conjunto dos sinais ajuda a perceber se faz sentido uma avaliação médica mais detalhada.
Dificuldade em engravidar ao longo do tempo
A probabilidade de gravidez em cada ciclo é limitada (entre 15% a 25% de hipóteses por ciclo em casais jovens e saudáveis) e depende de vários fatores (ovulação, qualidade dos gâmetas, timing das relações, entre outros).
Por isso, não conseguir engravidar nos primeiros meses é normal, assim como o aparecimento de dúvidas sobre se haverá algo que possa estar a impedir a conceção, mesmo quando não existem sintomas evidentes.
O facto de uma gravidez não surgir nos primeiros meses de tentativa não deve ser interpretado, à partida, como sinal de dificuldades na fertilidade.
Quando deves procurar uma avaliação médica?
De acordo com as recomendações clínicas, pode fazer sentido procurar acompanhamento médico quando:
- tens menos de 35 anos e a gravidez não ocorre após cerca de 12 meses de relações sexuais regulares e sem contraceção;
- tens 35 anos ou mais e a gravidez não ocorre após cerca de 6 meses de tentativas;
- tens mais de 40 anos ou condições médicas conhecidas (como endometriose, síndrome dos ovários poliquísticos, cirurgias ginecológicas anteriores ou irregularidades menstruais). Nestes casos, o aconselhamento especializado pode ser útil desde o momento em que decides tentar engravidar.
Nestes contextos, a consulta médica deve ser vista como um espaço seguro, de diálogo, esclarecimento e orientação, e não como um momento de confirmação de diagnósticos. Muitas vezes, uma conversa estruturada e alguns exames simples são suficientes para compreender o que está a acontecer e definir os próximos passos com mais segurança e tranquilidade.
Falar sobre sinais de desafios na fertilidade não é um exercício de medo, mas de conhecimento. Conhecer o teu corpo, compreender o que é habitual para ti e identificar mudanças relevantes é uma forma de autonomia e cuidado, sem esquecer que cada mulher é única.
Pouco fluxo menstrual pode ser sinal de infertilidade?
Nem sempre. Um fluxo menstrual reduzido pode ter várias causas e não significa, por si só, infertilidade. No entanto, em alguns casos pode estar associado a alterações hormonais ou do endométrio, pelo que deve ser avaliado se houver outras queixas ou dificuldade em engravidar.
O que é a Endometriose? Tem cura?
A endometriose é uma condição em que tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, podendo causar dor pélvica, alterações menstruais e, em alguns casos, dificuldade em engravidar. Não tem cura, mas existem tratamentos que ajudam a aliviar os sintomas e a melhorar a qualidade de vida.
O que é a reserva ovárica?
A reserva ovárica corresponde ao número de óvulos disponíveis nos ovários num determinado momento da vida. Esta reserva é definida antes do nascimento e diminui naturalmente com a idade.
Como é que a Endometriose afeta a fertilidade?
A endometriose pode afetar a fertilidade ao provocar inflamação, alterações nos ovários, trompas ou útero, e ao interferir com a ovulação. No entanto, nem todas as pessoas com endometriose têm dificuldade em engravidar, e muitas conseguem uma gravidez quando devidamente acompanhadas por um médico especializado.
Foram-me diagnosticados miomas. Vou poder engravidar?
Na maioria dos casos, sim. Muitos miomas não interferem com a fertilidade. O impacto depende do tamanho, localização e número de miomas, pelo que a avaliação deve ser individualizada e conduzida por um médico.
Estou há alguns meses a tentar engravidar mas nada acontece. Será que tenho algum desafio de fertilidade?
Não necessariamente. É normal que a gravidez demore alguns meses a acontecer. De forma geral, considera-se infertilidade quando não há gravidez após 12 meses de tentativas regulares (ou 6 meses em mulheres com mais de 35 anos). Se esse for o teu caso, é aconselhável procurar apoio médico para uma avaliação adequada e orientação personalizada.
A minha mãe/ irmã teve problemas de fertilidade. Vou ter dificuldade em engravidar? A infertilidade é hereditária?
Algumas condições associadas à fertilidade podem ter componente genética, mas isso não significa que a infertilidade seja hereditária em todos os casos. Ter antecedentes familiares não implica, por si só, dificuldade em engravidar. Se existirem dúvidas ou outros fatores de risco, uma avaliação médica pode ajudar a esclarecer a situação.
O meu ciclo menstrual é irregular. Será que vou ter problemas de fertilidade?
Ciclos menstruais irregulares podem estar associados a alterações da ovulação, mas não significam automaticamente infertilidade. Muitas pessoas com ciclos irregulares engravidam, sendo importante avaliar a causa da irregularidade.
Esta informação destina-se a literacia geral, não deve ser usada em substituição de aconselhamento médico, diagnóstico e tratamento. Conteúdos desenvolvidos em colaboração com o Dr. Miguel Raimundo, Médico especialista em Ginecologia-Obstetrícia.
Artigo revisto em janeiro de 2026