Queres saber mais sobre o congelamento de óvulos, vitrificação, e preservação de fertilidade feminina? Sabe mais sobre a sua eficácia, os motivos e a idade indicada para realizar esta técnica.
Congelar óvulos: como funciona e o que precisas de saber antes de decidir
Atualmente cada vez mais as mulheres tomam a decisão de ter filhos numa idade mais tardia. Esta decisão é influenciada por vários fatores, desde profissionais, pessoais e socioeconómicos. É neste contexto que a possibilidade de congelar óvulos surge cada vez mais como uma questão em contexto de consulta - não necessariamente como resposta a um problema de fertilidade já identificado, mas como uma forma de preservar opções para o futuro.
Este artigo procura ajudar-te a compreender o que é o congelamento de óvulos, em que situações pode fazer sentido, quais são as suas limitações e de que forma pode ser integrado no planeamento reprodutivo, com base em informação clara e cientificamente sustentada.
O que é o congelamento de óvulos?
O processo de congelar óvulos - tecnicamente designado por criopreservação de ovócitos - é um procedimento médico que permite recolher óvulos dos ovários, congelá-los e armazená-los para uma eventual utilização futura.
Os óvulos ficam preservados com as características biológicas (e a qualidade) que têm no momento da colheita, independentemente da idade que a mulher venha a ter quando decidir utilizá-los.
Congelar óvulos é um procedimento seguro?
Este procedimento tornou-se uma realidade segura e eficaz graças aos avanços da medicina reprodutiva, em particular com a introdução da vitrificação:
- A vitrificação , é uma técnica de congelação ultrarrápida e segura que evita a formação de cristais de gelo no interior das células (o principal fator de danos nas técnicas mais antigas).
- As taxas de sobrevivência dos óvulos após descongelação são hoje, em média, superiores a 90%.
Esta técnica é utilizada de forma rotineira nas clínicas de fertilidade, não só para óvulos, mas também para espermatozoides e embriões.
Em que situações pode ser utilizado o congelamento de óvulos?
Na prática clínica, o congelamento de óvulos é utilizado sobretudo em dois contextos:
1 - Preservação da fertilidade por indicação médica: Refere-se a situações em que a mulher vai ser submetida a tratamentos que podem comprometer a função ovárica e destruir a reserva de óvulos, como:
- quimioterapia;
- radioterapia;
- determinadas cirurgias aos ovários .
Nestes casos, o congelamento faz parte de uma estratégia preventiva integrada no plano de cuidados de saúde.
2 - Preservação social da fertilidade: Destina-se a mulheres saudáveis que desejam manter a possibilidade de engravidar no futuro com óvulos biologicamente mais jovens, mesmo sem uma indicação médica urgente. Esta opção surge frequentemente associada a um adiamento consciente da maternidade, seja por motivos profissionais, pessoais ou outros.
Congelamento de óvulos: quais são as suas limitações
Apesar de todos os avanços técnicos, é importante compreender que a criopreservação, ainda que preserve os óvulos com a idade biológica no momento da colheita, não elimina todas as limitações biológicas e não garante uma gravidez futura a 100%.
A idade, o estado de saúde, as características individuais e a qualidade dos óvulos no momento de congelamento continuam a ser fatores determinantes para os resultados. Além disso:
- Nem todos os óvulos sobrevivem ao processo de vitrificação: Embora a técnica seja excelente, a sobrevivência depende da qualidade biológica da célula. Óvulos com menor qualidade (mais frágeis) podem não resistir ao processo de descongelação;
- Nem todos evoluem da mesma forma após utilização: Ter óvulos congelados não garante que fertilizem ou que o embrião implante.
Quando é indicado congelar óvulos? Existe uma idade ideal?
A idade é um dos fatores mais determinantes na fertilidade feminina. Isto acontece porque:
- As mulheres nascem com um número limitado de óvulos;
- Esse número diminui ao longo da vida;
- Com o passar do tempo, diminui também a qualidade dos óvulos.
O congelamento de óvulos não interrompe este processo natural, mas permite preservar óvulos com a idade biológica que tens no momento da colheita.
Do ponto de vista biológico, a fertilidade é mais elevada na faixa dos 20 anos. No entanto, congelar óvulos muito cedo nem sempre traz um benefício significativo, uma vez que a probabilidade de engravidar naturalmente continua a ser elevada nessa fase da vida.
Por outro lado, a ciência mostra que o congelamento de óvulos pode ser particularmente relevante quando a mulher se aproxima dos 35 anos, sobretudo se não estiver a planear uma gravidez a curto prazo. A partir desta idade, a fertilidade tende a diminuir de forma mais acentuada, e preservar óvulos mais jovens pode representar uma vantagem futura em comparação com não fazer nada.
Na prática clínica, grande parte das mulheres recorre ao tratamento entre os 35 e os 38 anos, que continua a ser uma opção válida, mas como a qualidade dos óvulos começa a diminuir, o processo exige um planeamento mais rigoroso para conseguir uma gravidez.
Ainda assim, não existe uma idade “ideal” que se aplique a todas as mulheres. Este procedimento aumenta as tuas opções, mas não elimina outros fatores que influenciam uma gravidez futura, como a tua saúde geral, o funcionamento do útero e a presença de outras condições que possam afetar a fertilidade.
Processo de congelar óvulos: Passo a Passo
O processo decorre em várias etapas, sempre com acompanhamento médico:
1 - Avaliação inicial
Inclui:
- história clínica;
- ecografia ginecológica;
- análises hormonais para avaliar a reserva ovárica.
Esta fase serve para perceber como estão os ovários naquele momento e para estimar, de forma realista, quantos óvulos poderão ser obtidos e congelados e ajustar expectativas à realidade biológica individual.
2 - Estimulação ovárica
- Dura, em média, 10–12 dias;
- São administradas injeções subcutâneas diárias, geralmente no abdómen;
- Objetivo: estimular o crescimento de vários folículos ao mesmo tempo.
Durante este período:
- há acompanhamento regular com ecografias e análises periódicas;
- as doses são ajustadas em função deste acompanhamento, tornando o processo seguro e personalizado;
- os feitos secundários são geralmente ligeiros e transitórios, como sensação de inchaço abdominal ou algum desconforto pélvico nos últimos dias.
3 - Punção ovárica para colheita de óvulos
- Procedimento simples realizado em ambiente clínico sob sedação leve;
- Duração aproximada: 10–15 minutos;
- Os óvulos são recolhidos por via vaginal, guiados por ecografia.
A recuperação é, regra geral, rápida e as complicações são raras quando o procedimento é realizado em contexto adequado e com acompanhamento especializado.
4 - Vitrificação e armazenamento de óvulos
- Após a recolha, os óvulos maduros são submetidos a um processo de vitrificação, ficando armazenados em tanques de azoto líquido;
- Podem permanecer criopreservados durante muitos anos, sem perda significativa de qualidade.
E se não for possível congelar óvulos?
Existem situações em que o congelamento de óvulos pode não ser viável ou não trazer benefício significativo. Em algumas mulheres:
- A resposta à estimulação ovárica é reduzida. Nestes casos, deve ser avaliado se o benefício esperado compensa o impacto físico, emocional e financeiro do processo;
- A idade pode tornar o processo de congelamento mais limitado. À medida que a qualidade ovocitária diminui, congelar óvulos pode não se traduzir num aumento significativo das probabilidades futuras de gravidez, sobretudo quando são recolhidos poucos óvulos;
- Com histórico clínico específico, como endometriose avançada, cirurgias ováricas repetidas, antecedentes de tratamentos agressivos ou alterações hormonais, a eficácia do procedimento pode ser limitada.
Nestes casos, é importante saber que:
- Não congelar óvulos não significa ficar sem alternativas;
- Existem outras estratégias na medicina reprodutiva que podem ser consideradas mais tarde;
- Quando a função ovárica está mais comprometida, o recurso a óvulos doados pode ser uma opção clinicamente válida e com taxas de sucesso elevadas, ainda que envolva uma decisão emocionalmente exigente e que deve ser devidamente acompanhada;
- Em contextos muito específicos, pode ser considerada a criopreservação de tecido ovárico, incluindo a criopreservação da córtex ovárica, que é a zona do ovário onde se encontram os folículos. Esta técnica consiste na recolha e congelação de fragmentos do tecido ovárico que podem ser reimplantados mais tarde. A nível mundial, esta abordagem já resultou em vários nascimentos e, em alguns casos, permitiu restabelecer temporariamente a função ovárica. Porém, o congelamento do tecido ovárico não é uma alternativa ao congelamento de óvulos em mulheres adultas saudáveis, sendo uma técnica reservada a situações muito específicas, como crianças, jovens pré-púberes ou mulheres que necessitam de iniciar rapidamente tratamentos oncológicos agressivos.
Congelar óvulos no setor público e setor privado: o que saber?
Em Portugal, o congelamento de óvulos pode ser realizado no SNS ou em clínicas privadas, mas existem diferenças relevantes entre estes dois contextos que importa conhecer.
No setor público
- Geralmente reservado a situações de preservação da fertilidade por indicação médica;
- Pode ser comparticipado ou realizado sem custos diretos;
- Acesso sujeito a critérios clínicos e tempos de espera que podem não ser compatíveis com todas as situações.
No setor privado
- Disponível tanto por indicação médica como no contexto de preservação social da fertilidade;
- Acesso mais rápido com maior flexibilidade na marcação e acompanhamento mais personalizado;
- Implica custos diretos.
Em média, quanto custa congelar óvulos no setor privado em Portugal?
- Embora varie entre clínicas, protocolos e necessidades individuais, os valores situam-se entre os 2000€ e os 3000€ por ciclo;
- Pode acrescer um custo de armazenamento anual dos óvulos congelados que ronda os 500€ a 1000€ (dependendo dos anos contratados).
Em algumas situações, pode ser necessário mais do que um ciclo para concretizar o procedimento com um número de óvulos considerado adequado, o que tem impacto nos custos totais. Por isso, esta é uma conversa que deve ser feita de forma transparente, na fase inicial, permitindo uma decisão informada e sem surpresas.
A escolha entre setor público e privado depende do motivo do congelamento, da urgência clínica, da disponibilidade local e das condições pessoais de cada mulher. Em qualquer dos contextos, o mais importante é que a decisão seja tomada com informação clara, expectativas realistas e acompanhamento médico adequado.
O congelamento de óvulos é hoje uma ferramenta real de planeamento reprodutivo, disponível para quem deseja manter mais opções para o futuro.
O que é o congelamento de óvulos?
O congelamento de óvulos é um procedimento que permite recolher e conservar óvulos não fertilizados a temperaturas muito baixas, para uma possível utilização futura. Não garante uma gravidez, mas pode ser uma opção para quem pretende adiar a maternidade ou enfrenta situações médicas que podem afetar a fertilidade.
Quando ocorre a ovulação? Tenho de acompanhar a ovulação para proceder ao congelamento de óvulos?
A ovulação ocorre, geralmente, a meio do ciclo menstrual. No entanto, não é necessário acompanhar a ovulação natural para congelar óvulos. O procedimento envolve estimulação hormonal controlada, realizada e monitorizada por uma equipa médica.
O que significa vitrificação?
A vitrificação é a técnica utilizada para congelar óvulos, que permite uma congelação ultrarrápida, reduzindo a formação de cristais de gelo. Permitem que os óvulos permaneçam criopreservados durante muitos anos, sem perda significativa de qualidade .
Criopreservação de ovócitos é o mesmo que congelar óvulos?
Sim. Criopreservação de ovócitos é o termo médico utilizado para descrever o congelamento de óvulos.
Qual a melhor idade para congelar óvulos? Quando fazê-lo?
De forma geral, o congelamento de óvulos tende a ser mais eficaz em idades mais jovens, quando a qualidade dos óvulos é superior. No entanto, não existe uma idade “ideal” universal. A decisão deve ser individualizada e tomada com base em fatores como idade, reserva ovárica, contexto clínico e objetivos reprodutivos.
Esta informação destina-se a literacia geral, não deve ser usada em substituição de aconselhamento médico, diagnóstico e tratamento. Conteúdos desenvolvidos em colaboração com o Dr. Miguel Raimundo, Médico especialista em Ginecologia-Obstetrícia.
Artigo revisto em janeiro de 2026