Passar por uma perda gestacional, tentativas sucessivas para engravidar sem sucesso, exames e tratamentos de fertilidade, são vivências que têm um enorme impacto emocional. Cuidar da tua fertilidade é cuidar do teu bem-estar global, e é importante não descurar o cuidado emocional. Encontra aqui algumas estratégias para te ajudar a lidar com estas emoções.
Viver com infertilidade ou após uma perda gestacional
Como cuidares de ti e da relação quando o sonho de uma gravidez se transforma num percurso de sofrimento e luto.
Viver desafios relacionados com a fertilidade ou atravessar uma perda gestacional pode ser uma das experiências mais exigentes do ponto de vista emocional. Mesmo quando existe acompanhamento médico, exames, diagnósticos ou planos de tratamento, o impacto psicológico nem sempre encontra espaço para ser reconhecido, compreendido e cuidado. Muitas vezes, também a relação do casal e a forma como cada pessoa integra estas experiências ficam em segundo plano, apesar de poderem ser sentidas de formas e ritmos muito diferentes.
Quando o desejo de ter um filho não encontra resposta no corpo
Muitas pessoas crescem com a ideia de que, quando decidem ter filhos, o corpo responde de forma natural. Quando isso não acontece, pode surgir uma sensação de falha difícil de explicar. Não apenas uma falha biológica, mas uma experiência mais profunda de perda de controlo, quebra de expectativas e desorganização interna.
Mesmo quem nunca teve uma certeza absoluta sobre querer constituir família pode sentir-se profundamente afetado quando o processo não acontece como esperado. A infertilidade e a perda gestacional não dizem apenas respeito à possibilidade de engravidar. Tocam na identidade, na relação com o tempo, no corpo, no projeto de vida e no futuro imaginado.
É comum surgir a sensação de que algo ficou suspenso. O tempo avança, mas internamente tudo parece em pausa. Esta vivência pode gerar ansiedade, tristeza, frustração e um cansaço emocional acumulado que nem sempre é visível para quem está de fora.
Nada disto significa fragilidade. Significa que algo importante está em jogo.
Um impacto emocional que não é linear
O impacto emocional destes percursos raramente é linear ou previsível. Ao longo do tempo, é comum surgirem emoções intensas e contraditórias. Esperança e desânimo. Confiança e medo. Desejo de continuar e vontade de parar. Força num dia, exaustão no seguinte.
Muitas pessoas referem dificuldade em reconhecer o que sentem, porque as emoções que surgem não correspondem à imagem que tinham de si próprias. Podem aparecer pensamentos como “não devia estar a sentir isto”, “há quem esteja pior”, “tenho de ser forte” ou “não mereço isto”.
Reconhecer o impacto emocional, em vez de o minimizar ou corrigir, é um passo fundamental de cuidado. As emoções não surgem para atrapalhar o processo. Surgem como resposta a algo que está a ser vivido como significativo, incerto e exigente.
Permitir que estas emoções existam, sem pressa para as ultrapassar, ajuda a mudar a relação com o sofrimento. Quando se tenta afastar ou apressar emoções difíceis, o esforço de controlo tende a aumentar a tensão interna. As emoções não desaparecem; podem tornar-se mais intensas ou prolongadas. Quando são reconhecidas e aceites, o sistema emocional tende a organizar-se com maior facilidade.
Algumas perguntas simples podem ajudar a criar espaço interno:
O que é que hoje está mais presente em mim?
O que é que este processo está a ativar sobre quem eu sou?
Do que é que preciso agora, mesmo que seja algo pequeno?
Culpa, inveja e vergonha
A culpa, a inveja e a vergonha são emoções frequentes nestes percursos, mas pouco faladas. A culpa pode surgir por não conseguir engravidar, por sentir que o corpo falhou ou por não conseguir estar bem quando os outros parecem esperar isso.
A inveja é também uma emoção comum. Ver gravidezes à volta, anúncios, notícias ou partilhas pode ativar uma dor intensa. Não por falta de empatia, mas porque cada gravidez alheia pode funcionar como um espelho do que se deseja e não se tem.
Quando não reconhecida, a inveja pode gerar vergonha e afastamento social. Muitas pessoas começam a evitar encontros, celebrações ou conversas que antecipam como dolorosas.
A vergonha pode surgir associada à ideia de falha, inadequação ou de não corresponder a expectativas internas ou externas. Algumas pessoas descrevem a sensação de que o corpo as traiu, ou de que o tempo deixou de estar do seu lado.
É importante sublinhar que estas emoções são compreensíveis. Não indicam egoísmo, fraqueza ou incapacidade de lidar. Indicam que algo profundamente desejado está em risco ou foi perdido. Dar-lhes nome não serve para as eliminar, mas para que deixem de ser vividas em silêncio.
O processo vivido em casal
A infertilidade e a perda gestacional raramente afetam apenas uma pessoa. Afetam o casal enquanto sistema. Ainda assim, é comum que cada elemento viva o processo de forma diferente.
Uma pessoa pode precisar de falar, nomear a dor e revisitar o que aconteceu. A outra pode tender a proteger-se através da ação, do foco no futuro ou do silêncio. Uma pode procurar informação de forma constante, enquanto a outra se sente sobrecarregada com demasiados detalhes.
Em relações heterossexuais, é também comum que o homem tente proteger a parceira não manifestando o que sente, na tentativa de se manter funcional, forte ou de não acrescentar mais peso emocional ao processo.
Estas diferenças não significam falta de amor ou de envolvimento. São, muitas vezes, estratégias distintas de regulação emocional. O risco surge quando são interpretadas como desinteresse, frieza ou falta de empatia. Nesses momentos, podem surgir pensamentos como “parece que não sente o mesmo que eu”, “parece que já seguiu em frente” ou “sou eu que estou a exagerar”.
Na maioria das vezes, o que existe não é falta de cuidado, mas dificuldade em traduzir mundos emocionais diferentes, com necessidades e formas de expressão distintas.
Criar espaço para falar sobre estas diferenças, sem comparar dores, pode ajudar a reduzir o desencontro emocional. Perguntas como “o que é que isto tem sido mais difícil para ti?”, “de que forma posso estar mais presente?” ou “o que precisas agora, mesmo que seja diferente do que eu preciso?” podem ajudar a preservar a ligação num momento particularmente exigente.
Em alguns casos, o acompanhamento psicológico em casal pode ser um espaço seguro para compreender estas diferenças, melhorar a comunicação e atravessar o processo com menor solidão relacional.
A relação com o corpo em casos de infertilidade ou perda gestacional
Nestes percursos, a relação com o corpo pode tornar-se complexa. O corpo passa a ser observado, avaliado e medido, o que pode gerar distância, desconfiança ou mesmo raiva.
Algumas pessoas sentem que o corpo deixou de ser um aliado. Outras descrevem a dificuldade em cuidar dele quando é vivido como fonte de frustração.
Ainda assim, o corpo continua a precisar de cuidado. Mesmo quando não responde como se deseja. Pequenos gestos de gentileza, descanso, contacto com sensações agradáveis e pausas conscientes podem ajudar a sustentar o equilíbrio emocional ao longo do processo.
Cuidar do corpo não é desistir do objetivo. É reconhecer que ele continua a ser o lugar onde a experiência acontece.
Estratégias práticas para atravessar o dia a dia de quem vive a infertilidade ou perda gestacional
Não existem fórmulas universais para lidar com a infertilidade ou com a perda gestacional. Cada pessoa e cada casal vivem estes processos de forma singular. Ainda assim, algumas estratégias podem ajudar a criar maior sustentação emocional ao longo do tempo, especialmente em fases de maior desgaste.
Permitir-se sentir, sem se julgar devido à infertilidade ou perda gestacional
Dar espaço às emoções é um passo essencial. Tristeza, raiva, medo, esperança, ambivalência ou cansaço podem coexistir. Não há emoções certas ou erradas neste contexto. Tentar apressar o processo emocional ou exigir-se, “estar bem” tende a aumentar a tensão interna. Permitir-se sentir não significa ficar preso à dor, mas reconhecer o que está presente em cada momento.
Reconhecer os próprios limites
Estes percursos exigem muito do ponto de vista físico e emocional. Reconhecer limites não é desistir, é ajustar expectativas. Pode significar reduzir compromissos, pedir ajuda prática, aceitar dias de menor energia ou repensar prioridades temporariamente. Escutar os sinais de exaustão ajuda a prevenir um desgaste mais profundo.
Escolher com quem partilhar
Nem todas as pessoas sabem escutar de forma cuidadosa. Algumas minimizam, outras aconselham sem pedir, outras tentam resolver rapidamente. Identificar uma ou duas pessoas com quem é possível falar sem se sentir corrigido ou pressionado pode fazer uma diferença significativa. Partilhar menos, mas melhor, é muitas vezes mais protetor.
Criar limites nos contactos e contextos sociais
É legítimo afastar-se, temporariamente, de situações que intensificam a dor. Festas, encontros familiares, celebrações de gravidezes ou conversas repetitivas podem ser difíceis em determinadas fases. Criar limites não é egoísmo, é autocuidado. Esses limites podem ser revistos ao longo do tempo, à medida que a experiência vai sendo integrada.
Cuidar da comunicação no casal
Mesmo quando é difícil falar, manter algum espaço de comunicação ajuda a preservar a ligação. Não é necessário falar sempre sobre o mesmo tema, nem com a mesma intensidade. Partilhar necessidades, medos ou cansaço, sem acusação ou comparação, pode reduzir mal-entendidos. Reconhecer que cada pessoa tem o seu ritmo ajuda a evitar interpretações dolorosas.
Aceitar diferenças de ritmo e expressão emocional
Num casal, é comum que um elemento queira falar mais e o outro menos, ou que um procure informação enquanto o outro evita. Estas diferenças não significam falta de envolvimento. Aceitar que cada pessoa regula emoções de forma diferente pode aliviar tensões e diminuir sentimentos de solidão dentro da relação.
Criar pequenas pausas de descanso emocional
Nem tudo precisa de girar em torno do processo. Criar momentos em que o tema não é central pode ajudar a recuperar energia emocional. Atividades simples, contacto com a natureza, movimento corporal, práticas de relaxamento ou momentos de distração consciente podem funcionar como pausas necessárias, não como evitamento.
Cuidar da intimidade e da sexualidade
Em muitos casos, a sexualidade pode tornar-se funcional, associada a calendários, tentativas ou frustração. Reconhecer este impacto e, quando possível, criar espaço para intimidade sem objetivos pode ajudar a preservar a ligação corporal e emocional do casal. Nem sempre é fácil, mas nomear a dificuldade já é um passo importante.
Participar em grupos de apoio
Os grupos de apoio, presenciais ou online, podem oferecer um espaço de identificação e validação difícil de encontrar noutros contextos. Ouvir experiências semelhantes de infertilidade ou perda gestacional ajuda a diminuir a sensação de isolamento e a normalizar emoções que muitas vezes são vividas em silêncio.
Procurar apoio psicológico para lidar com a infertilidade ou perda gestacional
O acompanhamento psicológico, seja individual ou em casal, oferece um espaço seguro para dar sentido à experiência, organizar emoções e integrar o impacto emocional ao longo do tempo. Não é apenas para momentos de crise. Pode ser um espaço de reflexão, apoio e cuidado continuado num percurso exigente.
Estas estratégias não pretendem eliminar a dor nem apressar processos. O seu objetivo é ajudar a sustentar o caminho, criando condições internas e relacionais para atravessar uma experiência que exige tempo, cuidado e acompanhamento.
Um caminho que não precisa de ser vivido sozinho
A infertilidade e a perda gestacional são experiências mais comuns do que muitas vezes se reconhece, mas continuam frequentemente a ser vividas em silêncio. Procurar apoio não é sinal de fraqueza, mas o reconhecimento da exigência emocional deste processo, marcado por perdas reais, incerteza e reorganização interna.
Por vezes, o primeiro passo não é encontrar respostas nem avançar, mas aceitar que este caminho não precisa de ser atravessado a sós.
Esta informação destina-se a literacia geral, não deve ser usada em substituição de aconselhamento médico, diagnóstico e tratamento. Conteúdos desenvolvidos em colaboração com a psicóloga clínica Catarina Martins.
Artigo revisto em janeiro de 2026